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quarta-feira, junho 16

Anjos

Sorri com ternura ao encontrá-lo, ele segurou minha mão e me conduziu por um caminho de terra, com flores e altas árvores pelas margens. Fui sentindo a brisa morna afagar os meus curtos cabelos e com ela um perfume doce, mas discreto que vinha dele.

Junto a ele eu sentia tranquilidade, as minhas preocupações não tinham motivos para se fazerem necessárias, porque no meu íntimo eu sabia que as soluções seriam encontradas. Assim como, eu desejava somente continuar a caminhada, mesmo sem trocar uma palavra. Gostava daqueles encontros e a minha missão era aproveitar ao máximo cada instante, pois tudo seria apagado da memória e só as nuvens no céu iriam guardar os segredos.

Aos poucos eu fui sentindo a sua ternura passar por entre os dedos; toda a proteção que nele havia foi se tornando consciente quando aqueles olhos de amêndoas penetraram fundo o meu rosto e eu pude sentir o bem que havia ali e que continuaria a me guiar pelos pés, como asas, sempre que eu quisesse me perder.

Naquele momento o que me prendia eram as palavras que saiam como sussurro da sua boca. Palavras que iam direto para uma caixinha guardada no subconsciente e que seria aberta quando necessário como uma forma de encontrar a luz no fim do túnel toda vez que eu insistisse em me perder.

Continuamos a caminhar pela estrada deserta e aos poucos fui sentindo o cansaço, até que ele parou me pegou no colo e continuou. No meu ouvido eu sentia a paz entrar como canção de ninar e ele sorria para mim dizendo: “Descanse pequena, eu te levarei.”

E foi assim, em seu abraço cheio de segurança até o fim da estrada... Então ele entrou pelo quarto e com cuidado me colocou na cama e num último instante abri os olhos e pude vê-lo partir. Sorri lentamente e voltei a dormir.

Porque eles são assim, sempre anjos, que vão e vêm sempre a postos para nos guiar.

quarta-feira, maio 5

Alguém

Na verdade eu acordei de repente e estava deitada no sofá com as luzes apagadas e de jeans. Consegui ir para cama e cai novamente em sono profundo. Quando me dei conta a movimentação era intensa, os convidados já estavam chegando, decoração, música e ambiente perfeitos, apenas a minha espera.

O vestido estava lá, em algum lugar, pronto para ser usado. Porém, dentro do meu peito a inquietação crescia, junto a palpitações que não sessavam... Eu não queria aquilo! E se não desse certo? Eu nunca havia beijado-o! Como poderia ter certeza daquilo que estava fazendo se ainda não havia decidido o que fazer para o resto da minha vida? Comecei a sentir que ali não era o meu lugar, mas que ainda assim precisava estar ali... Minhas mãos suavam, as lágrimas tomavam conta, mas não ousavam cair e eu aflita ainda olhava para a janela, alternando os passos entre a porta, no carpete macio cor de creme.

Ela entrou pela porta, com um sorriso de excitação desejou-me um maravilhoso dia. Contou-me que a tarde estava linda e que o crepúsculo prometia ser encantador e conduziu-me por aquele monstruoso quarto. Como se a minha aflição não tivesse importância, meu cabelo foi moldado e o rosto recebeu a mais fina arte. O roupão foi deixado ao chão sem o menor pudor e aquele tecido branco evolveu cada centímetro.

Abri meus olhos e as pessoas sorriam, contavam casos engraçados, me abraçavam e eu bebia. Olhava para os lados e reconhecia os rostos mas não o encontrava. A música estava alta e entrava em conflito com milhares de vozes que disputavam o ambiente, até que tudo escureceu....
Minha visão foi bloqueada por duas mãos que logo reconheci serem suas. Apertei – as com força e sorri. Não senti o seu perfume, mas você me abraçou por trás e disse em baixo tom o tamanho da sua felicidade e do seu gostar. Você me abraçou novamente com muita força e eu tornei a fechar os olhos.

Quando abri, já era dia, a janela estava fechada e eu continuava de jeans, porém o calor do seu abraço ainda continuava nas minhas costas e o seu rosto não estava na memória porque não te vi.

quarta-feira, abril 28

Espelho


Às vezes quando me olho no espelho, ou simplesmente observo o céu através da janela, minha mente viaja, ideias surgem a todo o momento e desaparecem como fumaça, as lembranças tomam conta e trazem sentimentos guardados na incoerência, que faz surgir lágrimas e risos. Até o vento frio me envolve da raiz à ponta dos pés, numa mescla de desejo e abandono.
Isso me leva a imaginar mais e ao mesmo tempo em que penso sobre rosas, chego à conclusão que existem espinhos, que são difíceis de evitar ou tirar da palma da mão. Mas não esqueço de suas cores vibrantes ou não, que sempre trazem algum significado.
Significados que tento encontrar nos sonhos, para justificar a inocência do meu ser, a cada dia em transformação. As dúvidas crescem, a mente fervilha, os hormônios atiçam e a falsa razão faz-nos crer sermos sua dona! Porém, com o tempo e sem vergonha, vamos despindo as máscaras e a metamorfose entra em seu ciclo lento, mas gradativo, até o fim dos tempos.
De repente, os sons se tornam existentes, tudo sai do preto e branco e se torna fixo. Vejo meu reflexo ,observo o céu negro e sem estrelas, sinto as pálpebras pesarem e resolvo dormir, um sono pesado e sem sonhos conscientes.

segunda-feira, abril 5

Silêncios


Não há barulho, não há ninguém na rua. O caminho segue ladeira a baixo, a única coisa que sinto é o requebrar dos quadris e o vento que molda o vestido no meu corpo e tenta me impulsionar para trás, para o começo da estrada. Nada disso é forte o bastante para me fazer voltar, nem as lembranças... Só o que me mantêm é o fim da estrada, um ponto azul que se estende pelo horizonte de forma abstrata.
O que mais incomoda é a ausência de movimento, sons e corpos físicos; descer por esse caminho de pedras, a observar os casarões antigos, todos com portas e janelas fechadas, vivendo sós para si. Se pudesse atender um desejo, seria talvez o direito a realizar três pedidos – um pouco surreal, eu sei, mas podemos não estar no mundo real. A começar pelos sons, além da voz em minha mente, quero uma trilha sonora, que me balance, preencha os vazios que os objetos são incapazes de ocupar, que abra as portas e janelas e que seja o ritmo da descida a cada batida.
Desejo também humanos, cabeça, tronco e membros, com pele, calor, sentido e expressões. Que me peguem pela mão e me leve junto com eles para qualquer sentido, seguindo o ritmo ditado pela música. Quero que abusem dos meus pés e da minha cintura com a dança que jamais pensei em fazer. Sentir-me cansada, mas leve, como se não estivesse no chão e por alguns momentos talvez tonta, suada e com os pés doendo.
Além disso, desejo também algo que ainda não sei, pois me falta inspiração e criatividade. Poderia desejar que se fosse sonho, que nunca acabe, para que eu possa ficar aqui livre do mundo real. Mas se não, prefiro pensar mais um pouco e quando descobrir, eu venho te contar.

segunda-feira, março 29

Clichês


Meu coração dispara, minha respiração segue em descompasso, o tempo para e meus olhos só vêem você. De repente o toque dos seus dedos deixa marcas, sinto os poros se abrindo para deixar seu perfume entrar e invadir o restante dos meus sentidos. E quando nossos lábios se encontram, o momento vira música, as estrelas caem do céu e deixa a lua, soberana, iluminar nosso amor, que se torna dançante e infinito.
Nesse mesmo ritmo os dias passam, com tardes regradas a chocolates e morangos, noites doces e gentis, que esperam pacientes a minha deixa para os acontecimentos seguintes. E não penso nos desejos que querem você dentro de mim, sigo apenas o coração que me diz que é amor. Não ligo para súplicas carnais, esperando por seus dentes descendo pelo rosto, ao mesmo tempo em que sinto seus dedos dentro de mim.
Não creio que nossos atos sejam pecados, apenas amor. A cada breve instante que estamos juntos sinto suas mãos percorrerem o meu corpo com vontade, já conhecendo o caminho, mas deixando a cada toque novas sensações. E as minhas mãos se tornam experientes e ágeis para encontrar a felicidade que me faz tremer e queimar.
Porém você foi embora. Não atendeu aos meus chamados e nem voltou a me procurar. Fico sentada a sua espera, mas se torna em vão. Enquanto isso o buraco se torna mais fundo, o meu coração se quebra em mil pedaços, não consigo ver o meu reflexo no espelho, meu corpo dói e minha garganta seca, pedindo você. Ainda assim não vejo você pela porta, me pedindo de joelhos para voltar, dizendo que sente saudades e que precisa de mim.
Não consigo acreditar que o tempo não irá voltar. Passo os dias na literal escuridão, fugindo de mim, derramando lágrimas pelos lençóis e sem forças para afugentar medos e vergonhas, que aparecem a todo instante me fazendo sentir culpada e suja por tudo o que passou.
Até que as lágrimas secam, os monstros desaparecem e eu abro as cortinas deixando o sol entrar para iluminar a minha cabeça e o meu caminho.