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quarta-feira, março 9

Créditos

     Nando Reis cantou no meu media player show particular que “é bom olhar pra trás e admirar a vida que soubemos fazer”. Faz um ano que esse blog existe e preciso dar os créditos a várias pessoas que estiveram como assistentes de palco para não deixar o texto cair.
     A ideia inicial era declamar todas as minhas emoções às minhas paixões platônicas – sempre fui muito fã delas - ou não... Com o passar do tempo passei a soltar os meus bichos, que são tão animalescos quanto de qualquer vivente. E o blog foi por muitos textos o meu confessionário disfarçado para aqueles que não sabem, ou altamente reveladores para aqueles que conhecem as entrelinhas destas sardas.
     Enfim, devo um muito obrigada a todos aqueles que comentaram, ou vieram falar comigo com críticas positivas e negativas, às muitas noites que passei rascunhando cadernos velhos, a lua que me inspira de forma soberana da janela do meu antigo quarto e claro um salve para as minhas emoções que não deixam ser transpassadas em gotas, mas sim, em palavras.
     Vou continuar daqui, da capital, como universitária, republicana na tentativa de organizar minha independência e aspirante neste quarto de parede azul escura cantando fiel a Nando e seus companheiros de cela com minha escova de cabelos.

sábado, julho 3

Passos

O relógio marca mesma hora e minutos. O contador bate a ponta dos dedos na mesa, passa a mão nos vazios cabelos e mostra toda sua impaciência diante da caneta e dos papéis. Toda essa insatisfação vem da ausência de fantasias, que hoje a sua mente foi incapaz de fabricar. Mesmo com doses reforçadas de cafeína, ele não saiu do rabisco.

Em sua consciência ele quer escrever sobre caminhos; passos a dar em longos e diversos trajetos que a existência humana permitir. Mas como fazer isso sem a colaboração da peça principal que sempre o levou à maestria... Onde está sua inconsciência, companheira de madrugadas sem fim?

O contador vê então pela porta uma jovem silhueta de pele branca e cabelos negros, que prende toda a sua atenção no olhar. Ele observa atentamente, curioso, cada passo que é dado pelo quarto sujo e mal iluminado. A imagem e sensação de asco do ambiente, não conseguem ofuscar a nítida cor daquela carne que parece intocável.

Esse objeto de desejo vai mostrando, à medida que explora o lugar, sua infância debaixo de chuva, em alguma pensão do subúrbio da cidade. A adolescência que arrancava o juízo dos rapazes e a consciência dos mais velhos, que no início a assustava, mas com o tempo passou a dar-lhe brilho nos olhos e prazer em brincar.

O tempo foi passando e a brincadeira deixou de fazer sentido. Até que os seus pés encontraram outros pés e deixaram de ser só caminho, virou mãos e coração...

Porém como asas desenhadas, seus passos levaram-na para longe, em um lugar chamado Recomeçar. Ali, ela entrou e deixou para trás todas as fotografias, porque não queria sombras em seu caminho.

Desse modo, parou diante do contador e com os olhos mostrou todo o seu desejo a ser escrito. Assim, o contador de histórias pôs-se a escrever, fixado naquele olhar e no fundo temendo apaixonar-se por sua imaginação.